quarta-feira, 6 de abril de 2016

O ensino superior no Brasil e a imaturidade profissional.

Aos 12 anos de idade, tive uma professora de Educação Artística que nos ensinou perspectiva. Isométricas, um ponto de fuga, dois pontos de fuga... Uma das coisas mais comuns de se desenhar em perspectivas são edificações. Prédios, casas, ambientes internos e externos. E com isso, aos 12 anos, tomei gosto pelo desenho arquitetônico e arquitetura.

Considero-me um felizardo. Porque aos 12 anos, descobri com facilidade o que gostava de fazer. E isso me trouxe uma visão clara do que gostaria para meu futuro. Investi nessa decisão, e nunca tive dúvidas do que queria "ser quando crescesse". Mas isso não é comum, é uma situação mais rara do que parece.

Convivi durante o ensino médio e superior com colegas que não possuíam essa visão. Alguns de meus amigos sabiam, como eu, que desejavam ser médicos, engenheiros, advogados. Mas uma boa parte tinha dúvidas complicadas, como por exemplo: estudar Psicologia por gosto, ou Administração porque o pai tinha uma empresa?

O ensino superior no Brasil é cruel com o profissional. Um jovem de 17 ou 18 anos, tem condições de escolher seu futuro de forma definitiva? Aos 17 anos temos condições de saber o que é atender um paciente, o que é projetar um edifício ou processar uma grande empresa? E ainda pior: existem ações e tarefas por trás das profissões, que são inerentes ao trabalho, mas que não tem sequer relação com a formação do profissional. E foi assim que me vi, recém formado em Arquitetura e Urbanismo, tendo que entender como funciona a emissão de uma nota fiscal, e quais os tributos que nela estão embutidos. Confesso que não aprendi isso na faculdade, imagino que deva ser ensinado nos cursos de Economia, Contabilidade, Administração e correlatos. Mas garanto que é um assunto importantíssimo no dia-a-dia de qualquer profissional.

Somos desde cedo orientados a decidir nossa futura carreira. No final do ensino médio somos direcionados ao vestibular onde apenas uma opção é aceita. Não estou considerando aqui as especialidades dentro de uma determinada área, como por exemplo, engenharia civil, elétrica ou mecânica. Mas sim a decisão que um jovem de 17 anos precisa tomar entre ser engenheiro, médico ou músico. Além disso, a pressão continua após a escolha, para que se conclua o que se começou. 

Nem sempre é encarado com naturalidade o jovem decidir mudar de rumo na carreira, trocar de curso, trancar a matrícula. Se a decisão for por uma carreira diferente, então, o cenário é pior. Que mal  há de fato em um estudante de direito decidir largar tudo e cursar odontologia? Se isso for a centelha que incendeia uma carreira feliz e bem sucedida?

Defendo que isso mude. Defendo que o modelo educacional brasileiro dê tempo e espaço ao futuro 
profissional, para que saiba o que deseja de fato. É muito mais interessante que um jovem de 17 anos tenha um ou dois anos para aprender, conhecer as profissões, entender o mercado de trabalho. Aliás, penso que às vezes é mais importante entender o mercado de trabalho do que a profissão em si.

Quem sabe um modelo educacional que permita que o ensino superior seja igual nos primeiros dois anos para todas as carreiras, para que após isso o universitário tenha condições de decidir? Um biênio onde se aprenda, além das matérias técnicas, um mínimo sobre questões importantes como matemática financeira básica, oratória, gestão empresarial? Não é mais salutar soltar o recém formado no mercado um pouco mais tarde, mas mais amadurecido, do que inundar o mesmo de profissionais mal preparados técnica e psicologicamente por que não tiveram sequer tempo de escolher corretamente uma carreira? Fica a proposta para nossos educadores.

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