Aos 12 anos de idade, tive uma professora de Educação
Artística que nos ensinou perspectiva. Isométricas, um ponto de fuga, dois
pontos de fuga... Uma das coisas mais comuns de se desenhar em perspectivas são
edificações. Prédios, casas, ambientes internos e externos. E com isso, aos 12
anos, tomei gosto pelo desenho arquitetônico e arquitetura.
Considero-me um felizardo. Porque aos 12 anos, descobri com
facilidade o que gostava de fazer. E isso me trouxe uma visão clara do que
gostaria para meu futuro. Investi nessa decisão, e nunca tive dúvidas do que
queria "ser quando crescesse". Mas isso não é comum, é uma situação
mais rara do que parece.
Convivi durante o ensino médio e superior com colegas que
não possuíam essa visão. Alguns de meus amigos sabiam, como eu, que desejavam
ser médicos, engenheiros, advogados. Mas uma boa parte tinha dúvidas
complicadas, como por exemplo: estudar Psicologia por gosto, ou Administração
porque o pai tinha uma empresa?
O ensino superior no Brasil é cruel com o profissional. Um
jovem de 17 ou 18 anos, tem condições de escolher seu futuro de forma
definitiva? Aos 17 anos temos condições de saber o que é atender um paciente, o
que é projetar um edifício ou processar uma grande empresa? E ainda pior:
existem ações e tarefas por trás das profissões, que são inerentes ao trabalho,
mas que não tem sequer relação com a formação do profissional. E foi assim que
me vi, recém formado em Arquitetura e Urbanismo, tendo que entender como
funciona a emissão de uma nota fiscal, e quais os tributos que nela estão
embutidos. Confesso que não aprendi isso na faculdade, imagino que deva ser
ensinado nos cursos de Economia, Contabilidade, Administração e correlatos. Mas
garanto que é um assunto importantíssimo no dia-a-dia de qualquer profissional.
Somos desde cedo orientados a decidir nossa futura carreira.
No final do ensino médio somos direcionados ao vestibular onde apenas uma opção
é aceita. Não estou considerando aqui as especialidades dentro de uma
determinada área, como por exemplo, engenharia civil, elétrica ou mecânica. Mas
sim a decisão que um jovem de 17 anos precisa tomar entre ser engenheiro,
médico ou músico. Além disso, a pressão continua após a escolha, para que se
conclua o que se começou.
Nem sempre é encarado com naturalidade o jovem
decidir mudar de rumo na carreira, trocar de curso, trancar a matrícula. Se a
decisão for por uma carreira diferente, então, o cenário é pior. Que mal há de fato em um estudante de direito decidir
largar tudo e cursar odontologia? Se isso for a centelha que incendeia uma
carreira feliz e bem sucedida?
Defendo que isso mude. Defendo que o modelo educacional
brasileiro dê tempo e espaço ao futuro
profissional, para que saiba o que
deseja de fato. É muito mais interessante que um jovem de 17 anos tenha um ou
dois anos para aprender, conhecer as profissões, entender o mercado de
trabalho. Aliás, penso que às vezes é mais importante entender o mercado de
trabalho do que a profissão em si.
Quem sabe um modelo educacional que permita que o ensino
superior seja igual nos primeiros dois anos para todas as carreiras, para que
após isso o universitário tenha condições de decidir? Um biênio onde se
aprenda, além das matérias técnicas, um mínimo sobre questões importantes como
matemática financeira básica, oratória, gestão empresarial? Não é mais salutar
soltar o recém formado no mercado um pouco mais tarde, mas mais amadurecido, do
que inundar o mesmo de profissionais mal preparados técnica e psicologicamente
por que não tiveram sequer tempo de escolher corretamente uma carreira? Fica a
proposta para nossos educadores.
Boa semana a todos!
Este texto está disponível também em https://www.linkedin.com/pulse/article/o-ensino-superior-brasil-e-imaturidade-profissional-mario-saporito
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