quinta-feira, 14 de abril de 2016

Deixar as portas abertas: apenas no momento de deixar a empresa?

Um jovem profissional trabalhava em uma grande empresa. Começou como assistente, e devido a sua dedicação, em pouco tempo foi promovido.

Sua conduta e valores foram sempre motivo de admiração entre os colegas. Como no jargão popular, o jovem profissional “vestia” a camisa, fazia parte integralmente do time.

Apesar disso, seu superior nunca lhe dera um elogio, uma palavra de apoio ou motivação. Não que isso fizesse alguma diferença, seu trabalho seguia sempre com a mesma qualidade. Mas o rapaz tinha a impressão que não agradava ao superior.

Porém um dia, outra empresa, maior e com grande projeção no mercado, ofereceu ao jovem uma grande oportunidade profissional. Maior salário, mais benefícios, um cargo de maior visibilidade e principalmente um grande desafio para sua carreira.

O jovem pediu uma audiência com o superior. Sentados à mesa, o rapaz expôs o que ocorrera e disse que com dor no coração, pois tinha enorme apreço por seu trabalho, decidira aceitar. Foi muito claro sobre seus motivos, mostrou sua tristeza (genuína) em deixar um emprego pelo qual tinha imenso apreço, e recusou qualquer oferta para ficar onde estava. Não estava ali para negociar, a decisão estava tomada.

O superior, como sempre naqueles anos, não fez nenhum elogio, não aproveitou a oportunidade para adulá-lo, nada. Resignou-se com o pedido e deu a conversa como encerrada. Parecia incomodado, mas nada disse.

O jovem profissional saiu dali um pouco triste. Depois de tanto tempo juntos, aquela seria a oportunidade perfeita para que o chefe mostrasse por ele algum apreço. Mas não houve a manifestação. O jovem profissional pensou que talvez estivesse deixando para trás uma porta fechada. Que possivelmente nunca mais voltaria ali, o que lhe causava certa decepção.

Em sua última semana no emprego, ao chegar ao escritório depois do almoço, encontrou o presidente da empresa no corredor, que veio cumprimentá-lo.

- Fiquei sabendo que você vai nos deixar? A proposta foi irrecusável? – perguntou o executivo sorrindo.
- Sim – respondeu o jovem, um pouco sem jeito – Não pude dizer não.
- É eu imagino. Seu chefe me contou tudo.

O rapaz surpreendeu-se. Imaginou que o chefe não dera muita atenção ao fato.

- Ele contou para o senhor? – Perguntou.
- Sim – respondeu o presidente. E acrescentou rindo: Coitado, está desesperado. Também pudera, ele me disse que perdeu seu melhor funcionário!

Naquele dia o jovem profissional entendeu o que era deixar as portas abertas.

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Ao pedir demissão de uma empresa, é importante se fazer a seguinte pergunta:

- Se eu precisasse no futuro, teria coragem de pedir emprego aqui novamente?

Uma das expressões mais comuns quando um funcionário pede desligamento da empresa é “deixar as portas abertas”. Mas qual o significado da expressão? A melhor coisa ao se deixar as portas abertas é a certeza de poder voltar a encontrar as pessoas, de se ter deixado para trás amigos, colegas e principalmente oportunidades. Não raro uma pessoa precisa voltar a sua antiga empresa, nem sempre uma “aventura” no mundo lá fora rende bons frutos. Mas também existem os casos em que as pessoas são chamadas de volta por sua competência e bons “antecedentes”.

Tenho lido frequentemente em artigos sobre RH e comportamento no trabalho, que existem formas de desligamento da empresa nas quais é possível deixar uma boa impressão, a saber:

a)      Seja claro e transparente ao informar o motivo do desligamento. É importante que a empresa saiba que sua saída se deve a uma nova (e boa) oferta, ou que você não está satisfeito com sua carreira ou chances dentro da companhia. Desta forma, além da honestidade, você dá oportunidade para que a empresa possa se aprimorar, oferecendo melhores salários, melhores planos de carreira ou até um ambiente de trabalho mais saudável.
b)      Não minta. Se você não puder contar para onde está indo, diga que informará no momento oportuno, mas não conte uma mentira. Isso será para sempre lembrado.
c)       Só peça demissão se tiver certeza de que vai mesmo sair. Fazer leilão é muito feio. Se você recebeu uma oferta melhor, mas tem certeza de que quer se desligar, informe ao seu superior sobre a oferta (não precisa entrar em detalhes) e pergunte se a empresa pode cobrir. É muito mais honesto.
d)      Despeça-se dos colegas e equipes de forma coerente. Longos e-mails de despedida, dizendo que perdoa aquele dia que o seu amigo roubou seu iogurte da geladeira não são profissionais. Nem expor a todos seus sentimentos (bons ou ruins) sobre a companhia. Guarde isso para uma conversa reservada, ou para você mesmo. E manere no Happy Hour de despedida.
e)      Cumpra seus compromissos até o final, deixe tudo organizado para seu sucessor, arrume a bagunça e não deixe nenhum rastro de problemas para quem for ficar em seu lugar. Isso deixa uma péssima impressão.

Essas atitudes são importantes e fundamentais para deixar uma boa impressão na saída. Porém, entendo que o momento desligamento é só a ponta do iceberg. Não adianta agir da forma acima, se você não alimentou credibilidade durante seu período na companhia. As portas estarão sempre abertas para aquele profissional que apresenta uma boa conduta sempre:

a)      Seja claro e transparente o TEMPO TODO! O seu superior vai saber quando você estiver enrolando e quando estiver sendo direto. Por isso, não deixe pontas soltas e arestas mal aparadas.
b)      A relação com os colegas, subordinados, pares e superiores é mais do que importante. Você não precisa ser amigo íntimo, confidente, padrinho do filho ou de casamento de ninguém. Nem sequer gostar de todo mundo. Mas as relações interpessoais precisam ser cordiais e principalmente não ultrapassar a barreira do respeito, mesmo que nos momentos de maior estresse entre as partes. Não esqueça os clichês: “o mundo gira depressa” e “hoje você está aí e eu aqui, mas amanhã podemos estar invertidos”...
c)       Ética, moral e honestidade são valores intrínsecos. Cultive-os.
d)      Quais são os valores e cultura da sua empresa? Você os conhece? Acredita neles? Se não, procure outro emprego. Não adianta trabalhar em um lugar em que você não se encaixa. Mas se estiver trabalhando na companhia, seja aderente aos valores e cultura. Defenda-os em seu dia-a-dia. Você sempre será lembrado como aquele que “vestia a camisa”, para não sairmos dos clichês.

Também não podemos deixar de lado o momento após a saída. É comum uma pessoa pedir demissão para trabalhar para um cliente da antiga empresa, trabalhar em um concorrente maior e mais poderoso, ou mesmo ocupar um cargo similar ou até superior ao seu último chefe.

Isso não é vantagem. Nenhuma. O seu crescimento profissional não tem nada a ver com seu emprego anterior, ou com possíveis mágoas que possam ter restado deste. Portanto:

a)      Ao encontrar-se com antigos colegas ou chefes em eventos ou em trabalhos conjuntos, trate-os com o mesmo respeito e consideração que tinha quando trabalhavam juntos.
b)      Numa possível contratação de sua antiga empresa pela nova, mostre neutralidade, e se possível distancie-se do processo. A mesma ética que você mostrava na outra empresa deve acompanhá-lo no novo emprego.
c)       Caso tenha de atender um antigo desafeto da outra empresa em sua nova posição, jamais se aproveite disso. Trate-o também com respeito. Isso fará com que sua reputação seja sempre a melhor.

Acreditem, já passei por diversas dessas situações. Atualmente ocupo um cargo em uma empresa da qual me desliguei em 2006, e retornei em 2013. E nesse intervalo de sete anos, fui cliente dessa empresa em duas ocasiões. No dia em que retornei, entrei de cabeça erguida, encontrando velhos conhecidos, como se tivesse voltado de longas férias. As portas estavam completamente abertas.


Este texto está disponível também em https://www.linkedin.com/pulse/deixar-portas-abertas-apenas-momento-de-empresa-mario-saporito

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