quarta-feira, 15 de junho de 2016

A vasilha e o segredo da felicidade

Um humilde pescador decidiu sair pelo mundo em busca de conhecimento e cultura. O pescador velejou com seu barco por lugares que nunca sonhara visitar, e conheceu pessoas que jamais imaginou que existissem.

Em um desses lugares, o pescador ouviu falar de um rico mercador, um homem bom e justo, e que toda a população local alegava ser sábio e conhecer todos os segredos da vida.

O pescador decidiu então visitar o nobre. Ao chegar ao seu palácio, ficou encantado com a riqueza e imponência do lugar. Pediu para ter uma audiência com o homem, e após algum tempo de espera foi recebido pela ilustre figura.

O pescador narrou ao mercador suas viagens e aventuras, e causou no homem curiosidade. Ele desejava saber porque o pescador havia largado tudo para aventurar-se daquela forma.

- Ora - disse-lhe o pescador - eu ansiava conhecer novas culturas e ampliar meu conhecimento.
- Muito bom, respondeu o mercador. E o que o trouxe a mim?
- Todos na cidade o admiram e exaltam seu saber e sua justiça. Por isso vim perguntar-lhe algo que sempre quis saber.
- Pois não - disse o mercador. Pode perguntar.
- Eu desejo muito saber qual o segredo da felicidade.

O mercador fechou os olhos e pensou um pouco. Ao abrí-los, levantou-se, foi até uma mesa no canto da sala, pegou uma vasilha de ouro rasa e encheu com água até quase a boca. Levou-a com cuidado até o pescador e a entregou a ele.

- Caro amigo - começou - antes de contar-lhe tão valioso segredo, peço que pegue essa vasilha e ande por todo o meu palácio. Mas em hipótese alguma, derrube a água que está dentro!

O pescador não entendeu, mas fez o que lhe era pedido. Andou por todo o palácio, sempre de olho na vasilha. Ao voltar, o mercador foi logo perguntando animado:

- E então? Gostou do palácio? Viu os quadros da minha sala de arte? Gostou das esculturas? E o que achou da fonte banhada a ouro e platina?
- Na verdade - respondeu o pescador sem graça - não prestei atenção. Estava muito preocupado com a água na vasilha...
- Então o passeio de nada serviu - respondeu o mercador. Faça o seguinte: pegue novamente a vasilha e dê outra volta. Mas preste atenção no palácio, entendeu? Não perca essa oportunidade!

E novamente o pescador passeou pelo palácio. Mas dessa vez voltou maravilhado:

- O seu palácio é maravilhoso! Quanta arte! Quantos livros! Quantas belezas!
- Muito bem - disse o mercador. Mas onde está a água da vasilha?

O pescador observou a vasilha e viu que estava vazia. Na ânsia de visitar o palácio, descuidara-se da água!

- Eu a deixei cair, sinto muito...

O mercador sorriu e respondeu ao pescador:

- Esse é o segredo da felicidade, meu amigo. Conhecer o mundo, visitar as riquezas, ampliar o seu saber. Mas nunca descuidar-se da água na vasilha...



No nosso dia-a-dia estamos sempre ocupados com os afazeres, com as tarefas e com nossas responsabilidades. A cada passo que damos na vida profissional, nossa pequena vasilha enche-se mais e mais.

Em determinado momento, a vasilha das nossas responsabilidades torna-se uma preocupação enorme, onde carregá-la sem que derrubemos seu conteúdo é a maior de nossas preocupações.

E o mundo que nos cerca? Em que momento de nossa vida profissional paramos de prestar atenção nele, para que possamos apenas cuidar para que a vasilha não entorne?

Conheci inúmeros profissionais que prejudicaram família, casamento, filhos e saúde em busca da carreira perfeita. Escutamos isso o tempo todo, lemos matérias nos jornais e revistas especializadas, sobre como dosar a carreira e a família ou a saúde. Existem à disposição diversas “receitas” sobre como isso pode ser feito, testemunhos de profissionais bem sucedidos que mantém uma agenda equilibrada, ou que largaram suas profissões em busca de algo que trouxesse esse equilíbrio profissional.

Não importa a solução adotada. Seja o equilíbrio da agenda, seja a mudança profissional, seja um tratamento de saúde, o que importa é que temos que estar dispostos a aceitar o equilíbrio em nossas vidas. Num mundo moderno, onde a informação viaja quilómetros em poucos segundos, onde podemos consultar relatórios e números em pequenos aparelhos portáteis e onde os lugares mais distantes tornaram-se de repente mais próximos, fica difícil aceitar que se pode parar de trabalhar em determinado momento. Parar para descansar, para dar atenção às riquezas que nos cercam. Para observar uma beleza natural, para dar atenção a alguém próximo, ou sequer para sentar em uma poltrona com um livro nas mãos e cochilar na terceira página.

O mundo moderno nos conduziu ao imediatismo. Mas o imediatismo nos conduz à ansiedade, ao stress e às necessidades urgentes. Não nos deixemos levar por esse imediatismo. É importante que sejamos sempre bons profissionais, daqueles que não deixa para amanhã o que pode ser resolvido hoje. Mas que não nos esqueçamos que existem belas riquezas fora das paredes do escritório, que não devem ser desprezadas. 

E sempre de olho na vasilha...

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